Caxola

Idéias flutuam pela ruas da cidade. Nadam pelos ares em busca de ouvidos atentos e ansiosas por olhos curiosos. Meu prazer voluntário é capturá-las, vesti-las de sedas e traduzi-las em palavras. No Caxola, a beleza acre do cotidiano veste traje de gala.

terça-feira, julho 16, 2013

Tempo

A vida traz riso, choro, rugas, quilos. A vida pesa e compensa. Balança, cai, levanta. Nossa pele perderá o viço, enrugará e se pintará de manchas. Nossos cabelos hão de se escassear, embranquecer. Teremos filhos. Netos. Bisnetos. Nossos olhos – em um paradoxo – serão outros e, ainda, os mesmos. Desde que olhemos, lado a lado, na mesma direção.

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segunda-feira, fevereiro 25, 2013

As pernas da bailarina


Ainda custo a afastar do peito essa angústia. Tanto feito. Tanto a fazer. E, antes que eu possa atualizar a lista de pendências, a vida vem e cobra. A gente faz as contas enquanto correm os juros. Viver é dever pra si. Viver é dever pro mundo.

Os ponteiros do relógio são como as pernas de uma bailarina que exagerou na dose ao chorar o fim de um amor.

A bailarina ensaia uma pirueta. Ergue a perna direita, desenha um semicírculo no ar. A perna de apoio bamboleia. Ela retorce o tronco a buscar equilíbrio e cai, lenta. Toca o chão como um lenço de pano. Pano de chão.

É quando a bailarina tomba que a música aumenta a batida. Dance, dance, dance, bailarina, ordena cada nota. Ela junta-se os cacos. Dança como pode, já zonza. As pernas bailam bambas. E as horas passam.

Anos passam. Já são quase 30. Não venero juventude nem vejo graça em molecagem. É só o peso dos 30. Não há nada com a idade. Meu problema é criar rugas antes de sararem as espinhas.

A vida corre rápido demais. Há dias durmo com uma certeza: acordarei com 90 anos. Ao lado da cama, sentada em uma cadeira de encosto alto, estará minha netinha. “Dorme, vó, é cedo ainda”, ela me diz. Fecho os olhos e cochilo. É cedo ainda.

"Caro é transformar-se num arremedo de si próprio a ponto de nem se reconhecer mais. Hoje eu tenho 130 anos, isso não estava nos meus planos. Você sabe, a desordem é tenaz" [130 anos, Agridoce]




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domingo, julho 03, 2011

Amar de perto

Chamem-me do que quiserem. Não sei amar à distância. Inimaginável começar o dia sem o sorriso bobo dele ao acordar. Sem o elogio aos meus olhos – que, diz ele, ficam mais verdes quando recém-abertos. Sem a marmita de café da manhã, que ele devora a caminho do trabalho.

Como seria nossa história se não houvesse a garrafa térmica vermelha que eu enchia de café preto para mantê-lo acordado durante uma jornada de trabalho de madrugada? E se não houvesse o cafuné de ponta de dedos para me acalmar depois de uma semana em que nada deu certo? Do que seria feito o amor senão dos detalhes de cada dia, da miudeza dos minutos?

Passamos o domingo entre a cama e a mesa, num infindável ciclo de sono e fome. Ao final do dia – um inútil dia – chegamos a mais preciosa conclusão de nosso relacionamento desde aquele primeiro beijo, naquele onze de dezembro de 2006.

Com a cabeça apoiada no ombro dele, calculando os milímetros entre cada fio da barba por fazer, enquanto ele enroscava os dedos nos meus cabelos, perguntei o que nos faltava para sermos felizes. “Nosso canto”, respondeu. Pisquei duas vezes. É.

Não será pra agora, talvez não para logo. Dá medo, mas encanta. Juntar as rotinas, as manias, os medos. Recolher as roupas do banheiro. Dividir as contas, as responsabilidades, a cama. Repartir as tarefas domésticas. Recolher o rastro modorrento do cotidiano. Repartir as agonias - uma a cada dia. Juntar o coração dele com o meu. Ainda mais.

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segunda-feira, março 01, 2010

A pressa e o tempo

Cabelo de fogo. Boca de matraca. Olhar de raio. É a pressa. Funga no cangote meu um suspiro frio. Abafa a cautela. Expõe ao risco. É a pressa. Pra ontem. Corre contra o relógio. Tropeça no anti-horário. Hora de entrega. É a pressa. Pra já.

Rodamoinho encobre meu pescoço. Antes vento nos calcanhares. Agora tornado nos ouvidos. Venta forte. Confusão. Tonta, tateio a saída. Por aqui? Por acolá? Pra já. Feio, mas feito.

Inimigo da pressa, o tempo desliza pelos ponteiros. Segue o sacolejar do sol. E acomoda-se faceiro. Na poltrona das horas cheias. À espera do célere desfecho da pressa.

Telefone chia, urge, urra. Erro.

O alerta soa. Poeira voa. Erro. Erro. Erro. Resgato a pressa. Mergulho com ela. Solução, cadê? Calma. Respira. Pra já. Calma. Pra ontem. Toma. Corrige.

Vergonha encolhe meu peito. Avermelha minha face. Esfacela meu ânimo.

Num choroso contraste, a pressa encontra o tempo. Ele, olhos baixos. Ela, boca franzida. “Pedi a ti cautela”, resmunga ele, com voz de manteiga. “Era pra já”, sibila ela, com espinhos na língua. “Acalma-te”, recomenda o tempo. “Erramos”, admite a pressa.

Cabisbaixos, tempo e pressa dão-se os braços. E seguem tortos por um roto caminho. De iludida perfeição. De comovida imperfeição.

Insanity laughs under pressure we're cracking. Can't we give ourselves one more chance? [Under pressure, Queen]

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